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1 de set. de 2021

#Coluna #TravasETrovas #LucianoDosAnjos - O homem da caixa d'água

Destaque na Tv | Fotos: Reprodução


Por Luciano dos Anjos 


Em meados de 2013 comecei a pintar a caixa d'água do tomba. Em 2014, saiu a primeira matéria no “Portal Terra de Lucas” e na “TV” falando desse patrimônio feirense. Só que antes de começar a pintar, a bendita “Dama da Feira” já era louvada em nossos poemas, como o poema concreto engolindo verde do ano de 2008. Aquela figura sempre fez parte do meu campo de visão. Sempre que chegava uma visita eu fazia questão de apontar nossa joia preciosa e singular.

 

Sempre que saia na porta de casa ela estava lá, majestosa, vestida de nuvens alegóricas flutuando pelo céu de estio como um disco voador. Quando eu ia no Tomba, meus olhos só tinha olhos pra ela, que sempre me recebia contando suas histórias de víveres. Quando estava alegre ou triste, muitas vezes incompreendido por ser artista, nessa cidade onde as almas são tão áridas de poesia. Eu chegava na esquina e mirava a bendita buscando um sinal de liberdade! Foi ela que viu meu sofrer pelas ruas sem fome de beleza. Foi ela que me mostrou sobre a mesa, o alimento místico que sacia a fome da cabeça. Quando a tarde cai e o sol se esconde pelas bandas do Jacuípe, uma voz vaticina uma esperança de um futuro bom.

 

Antes ninguém falava dela, porque ela morava no Tomba. Se fosse num bairro de classe média ou alta todos falariam. É sempre assim, nossos olhos só veem o que nosso coração permite. Isso me incomodava, aquela “bela dama” estava lá esquecida porque morava na periferia. Comecei a pintar repetidamente, e uma voz  sempre me dizia em silêncio: “Pinta, pinta, um dia todos vão querer pintar, fotografar…” E os dias se passaram e aquela voz estava certa. Hoje todos pintam, ou usam sua imagem para dizer que é da “Terra da Caixa d'água”. Sejam os políticos, publicitários, tatuadores, e diversos artistas já colocaram a caixa d 'água em seus repertórios imagéticos.

 

Quero personificar a caixa d'água a uma mulher, a figura mais ilustre que vinha do tomba, “Maria do assobio”. Ela passava pela rua Araújo Pinho, quando eu era  menino e vendia meu pastel pela cidade. Ela vinha toda misteriosa assobiando e trazendo poesia em meu olhos. Sempre que ia pelas bandas do Tomba eu me lembrava dela subitamente e um ar de mistérios me cercava com suas poesias de enigmáticas. Maria do assovio era uma mulher arrojada, vestia calça naquele tempo  em que quase todas as mulheres andavam de saia e de vestido. Sua argolas douradas e grandes mostravam sua sede de liberdade.

  

Além de morar num lugar perfeito para visualizar a musa, eu seguia para “pedra do silêncio” e ela estava bem pertinho dialogando com as nuvens. Ali cresci vendo a bendita contando suas histórias. Eu via os artistas pintando o homem do campo, o mandacaru, o vaqueiro e outros imagéticos símbolos de Feira, só que eu queria algo que ainda não tivesse sido explorado. E via que a caixa d'água não aparecia em nenhuma tela e quase não era fotografada. Foi aí que começou meu trabalho para trazer luz esse monumento que nos enriquece com sua beleza e singularidade.

 

Muitas vezes fui criticado por pintar a caixa d’água em todas as telas. As vezes em primeiro plano, outras num canto esquecido da tela, outras vezes como uma miragem distante. Lá estava ela como uma assinatura.Só que algumas pessoas mais chegadas já sabiam que minha forma de enfatizar a caixa d'água era para reforçar nossa identidade cultural. Vivemos em uma sociedade caduca, que não reconhece sua memória e a sua história, por isso, não reconhece a si mesmo e nem o feito dos outros. O povo vive copiando os outros e não olha para seu quintal.

 

Em 2021 estou pintando a caixa d'água inclinada (tombando) como uma metáfora do bairro Tomba. Agora vejo que ela está brilhando mais que nunca. Todos que passam por ela sempre tiram uma foto dela para postar nas redes sociais. Quando eu olho lá para trás vejo que nada foi em vão. Quero falar da minha terra, do lugar que nasci e cresci, se eu não falar do meu povo, porque viver por aqui? Aquela que não sabe de onde veio não saberá para onde deve ir. Quero que teus filhos deixem de ser fera e em silêncio se volte ao vale da razão. Quero  que todos os teus filhos, possam andar nas tuas ruas e olhar pro céu sem nenhum temor como os meninos que empinam pipas tentando colírios para esse céu de bronze.


Fotos: Reprodução / Ilustração

Depoimentos:

  

“O ativismo de Luciano dos Anjos pode ser definido entre outros aspectos como uma arte implicada. A maneira simples de expor suas leituras de mundo a partir das composições figurativas, o aproxima da linguagem Naif, uma tipologia artística dotada de liberdade estética e desprendimento a convenções, concebida pelos que pintam com espontaneidade. Certo é que atrelada a função adquirida por sua arte, ou seja, embelezar os espaços públicos, está a missão de expressar nas pinceladas rápidas e paletas cromáticas vigorosas, representações de ícones urbanos e rurais que fazem parte do imaginário coletivo de Feira de Santana; bem como, de dar vida a crônicas visuais provocativas, vindas de um vasto repertório de temas ligados ao patrimônio-acontecimento, ou seja, o entrecruzar de narrativas domésticas que se tornam coletivas, numa partilha imagética de cultura e memória, vias de regra, fora do estruturado circuito comercial do patrimônio, que emerge do cotidiano local e reivindica nas dimensões poéticas, políticas e pedagógicas, o reconhecimento de sujeitos sociais e seu direito à memória, a partir de inusitados intercâmbios, propostos bem ali, na próxima esquina.” - Cristiano Silva Cardoso | Diretor do museu casa do sertão.

 

“A rua sempre nos inspira, é nossa galeria de arte, e sempre que olhávamos para o horizonte da esquina da Vênus com a Anguera no Jardim Acácia, a caixa d’água do tomba era o elemento de personalidade que trazia à vista a certeza de estarmos em Feira de Santana, o sentimento de pertencimento tão difícil de ser conquistado numa cidade cosmopolita, é sintetizado nesse momento. Quando praticamente ninguém a utilizava com essa função, de identificação cultural da cidade, nós já a pintávamos em nossa arte e incentivamos outros artistas a fazerem o mesmo, dizendo inclusive que ela é a “Torre Eiffel de Fsa”. A caixa d'água do tomba que antes povoava o imaginário feirense apenas com um ar de mistério a respeito da sua construção e arquitetura, hoje, é símbolo de diversas marcas e estabelecimentos comerciais, e principalmente de movimentos culturais da cidade, e a nossa contribuição para essa evolução é inegável.” - Dan Luz

 

“Sempre que chegava na esquina da Vênus com anguera, lá estava  Seu Lu vendo o pôr do sol e contemplando a caixa d'água.Lembro-me ainda do poema concreto engolindo verde que citava a caixa d'água.Como um profeta, ele vaticinou que um dia a caixa d'água do tomba seria o icone memorial principal da cidade.Ele tinha um certeza silenciosa que o fazia pintar a caixa d'água em todos os cantos da cidade.Hoje, vejo todos pintando a musa do poeta e vejo que seu sonho virou realidade.Sou da terra da caixa d'água do tomba !!!”  - James Tagore



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