4 de mar de 2016

Compreendendo o axé music a partir de suas bases estilísticas primárias (ou “pré-axé”)


E no recém-egresso ano de 2015, o mais baiano dos gêneros musicais – cujo “pai” é um feirense, isso não pode deixar de ser mencionado – completou 30 anos de idade. Trata-se de um ritmo altamente diversificado e pluralista do ponto de vista identitário. Dessa forma, não se pode tentar definir o axé music sem antes tentar compreender o que veio antes dele. O que veio antes que o definiu culturalmente e, principalmente, musicalmente? Esse questionamento se faz imprescindível nesse contexto.

Jornalista Hagamenon Brito, criador do termo "Axé Music"

O termo axé (derivado do termo ioruba àse), originariamente, é uma saudação típica das religiões de matrizes africanas, especialmente do candomblé, que significa “energia positiva” ou, simplesmente, “paz”. A palavra inglesa music (música, em inglês) foi acrescentada, posteriormente, pelo jornalista Hagamenon Brito, em 1987. Assim, a axé music – a “música da paz” – constituía, em sua etimologia e essência, um gênero a princípio local, mas desde já com aspirações internacionais, o que concretizaria anos após a sua consolidação.

Dodô e Osmar os inventores do trio elétrico e da guitarra baiana.

Ritmicamente, as bases estilísticas primárias do axé music são compostas basicamente pelo frevo, galope, reggae, merengue, forró, maracatu, samba reggae, ijexá e pela musicalidade afro-brasileira e afro-latina. De fato, o carnaval de rua propriamente dito remonta da longínqua década de 1950, com o surgimento do Trio Elétrico – um Ford 1929, batizado de “fobica”. Em cima da recém-inventada “geringonça”, Dodô e Osmar tocavam o frevo pernambucano em guitarras baianas – uma espécie de guitarra elétrica de tamanho reduzido, adaptada por eles mesmos (vídeo abaixo).



Posteriormente, Moraes Moreira, recém-egresso do Grupo Novos Baianos, teve a ideia de subir em um Trio Elétrico para cantar (vídeo abaixo): seria o início da tradição de grandes cantores (e cantoras) “puxando” o carnaval sobre Trios Elétricos.


Não se pode deixar de mencionar que no decorrer da década de 1960, paralelamente ao crescimento do movimento dos trios, aconteceu o da proliferação de blocos-afro, como os Filhos de Gandhi, o Ilê Aiyê, o Muzenza, o Araketu e o Olodum. Esses grupos executavam ritmos de matrizes africanas como o ijexá e o samba  (vídeos abaixo).         





Wesley Rangel - Produtor Musical


Porém, a “grande revolução” começou no início da década de 1980, quando um grupo de jovens músicos se encontraram no Estúdio WR (do saudoso Wesley Rangel, falecido no último dia 6 de janeiro, aos 65 anos de idade) para formarem uma banda contratada para substituir a banda então residente do estúdio. 



Foto: Arquivo
Da esquerda para a direita (Toni Mola, Carlinhos Brown (percussão) Paulinho Caldas (backing vocal), Luiz Caldas, vocal e guitarra) Cesinha (bateria)  Carlinhos Marques (baixo), Silvinha Torres (Backing vocal) e deitado na espreguiçadeira, Alfredo Moura (teclados)


Eram eles, “simplesmente”: Luiz Caldas, na Guitarra Baiana, Guitarra e Voz; Cezinha, na Bateria; Carlinhos Marques, no Contrabaixo; Alfredo Moura, nos Teclados; Tony Mola e Carlinhos Brown, na Percussão, Sylvinha Torres e Paulinho Caldas, nos baking vocals. Nascia a Banda Acordes Verdes: um conglomerado de músicos jovens e talentosíssimos que dariam o pontapé inicial para o movimento musical que revelou a Bahia para o mundo (vide abaixo).


Os arranjos de Alfredo Moura, o principal maestro do grupo, seriam essenciais para a criação e a consolidação de um novo conceito musical, somando elementos oriundos de diversas culturas musicais interagindo homogeneamente. Tratava-se de uma musicalidade que tinha características marcadamente baianas e ancestrais, mas sempre antenada com o presente e o futuro.
A linguagem predominantemente popular possibilitou a divulgação dessa nova música nas rádios e televisões por todo o Brasil. E o decorrer da história culminou com o lançamento da canção Fricote (autoria de Luiz Caldas e Paulinho Camafeu), faixa do álbum Magia (de 1985), o “marco zero” do axé music propriamente dita (vídeo abaixo). Daí para frente, o fenômeno se popularizou, ganhou força e vem se redefinindo. E o restante da história, todo mundo já conhece (ou quase isso).







Henrique Magalhães
Biólogo, professor, pesquisador e colecionador de discos de vinil.

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