8 de fev de 2016

Samba enredo como meio de educação popular

Foto: Carnaval no Brasil

Carnaval também é cultura. Pode parecer clichê, mas o carnaval se confunde com vários momentos da história e o samba, mais especificamente o samba enredo, é muito usado como meio de educação popular.
Entenda como isso acontece verificando seu processo histórico social, e todo seu valor no processo de formação cultural, compreendendo assim uma variedade de conteúdos através de suas letras e manifestações.

História do samba enredo

história do samba enredo, muito se confunde com a história do carnaval carioca. O samba tem sua origem nas raízes africanas, sendo sua base trazida pelos escravos que aqui chegaram, transformado ao longo do tempo, adaptando-se as características e necessidades encontradas no Brasil.
Por ser sua origem africana, o samba se origina mais precisamente nas favelas e morros do Rio de Janeiro. Por essas questões o samba ganha status de uma cultura marginal, e por diversas vezes, sambistas eram presos e considerados vagabundos.
Por outro lado existia um movimento no Brasil, muito bem aceito, possuidor de uma origem europeia, chamado carnaval. A tão famosa Festa do Entrudo – como era conhecida em Portugal – tinha um ar de liberdade em que nesse período de quatro dias valia quase tudo.
É neste clima de liberdade, onde nas brincadeiras não existe classe social, que o samba encontra seu lugar. Os sambistas que eram tão perseguidos, encontram um momento em que podem expressar sua cultura, sem o medo de serem desprezados ou até mesmo presos.
Mesmo com o intenso preconceito por parte da elite em relação ao samba e aos “batuques”, durante este período, o “morro” desce, sendo o que verdadeiramente é, sem medo, pois durante os quatro dias, nada é ridículo, nada é demais. É desse modo que foram se formando os primeiros blocos e escolas de samba.
O carnaval brasileiro, não tinha samba. O samba (cultura negra) foi se fundindo ao carnaval (cultura branca), dando origem aos cordões, blocos e as escolas de samba. Um carnaval que é brasileiro, um estilo musical que não é de mais ninguém que não o brasileiro. Uma parte da identidade de nosso país, uma parte de nossa cultura.
O samba é, para o Brasil, juntamente com outros símbolos, uma marca da brasilidade. Tanta importância tem o samba para o contexto brasileiro que, entre outras coisas neste país de rica cultura musical, é o ritmo reconhecido como música de caráter nacional.

Escolas de samba

Surgem assim as escolas de samba, que não possuem o nome “escola” por acaso, mas dentro deste nome está embutido o significado mais real do nome “escola”, pois o termo escola de samba, significa ensinar aos mais novos a cultura antepassada africana, através do samba.
Assim, o samba funcionaria como uma forma de resistência dos negros, na sua fé, na sua cultura, uma forma de manutenção de uma identidade tão perseguida. A escola de samba neste contexto exerce o papel de entidade de educação popular, na medida em que vai trabalhar e desenvolver uma cultura popular.
A denominação “escola” fixou-se em 1928, com a criação da Deixa Falar, no bairro carioca do Estácio. Segundo seu fundador, o compositor popular Ismael Silva, o termo provém de uma escola normal que existia no bairro (Encyclopaedia Britannica do Brasil, 2000).

Samba para educar

Durante o processo histórico os sambas ganharam uma característica educativa e ao mesmo tempo de expressão de sentimentos e ideias. Veja alguns exemplos de sambas enredo famosos:
  • “Kizomba, Festa da Raça” (Vila Isabel 1988): resgata a cultura negra.
  • “O dono da terra” (Unidos da Tijuca, 1999): promove a exaltação à cultura indígena.
  • “100 anos de frevo é de perder o sapato. Recife mandou me chamar” (Mangueira, 2008): resgate do passado e da valorização de nossa cultura.
  • “Aquarela Brasileira” (Império Serrano, 1964): promove a exaltação às riquezas e belezas do Brasil com muito espírito patriótico.
  • “A cana que aqui se planta tudo dá. Até energia… álcool. O combustível do futuro” (Salgueiro, 2004): discute temas econômicos, científicos, pertencentes a uma determinada época, determinada realidade e atualidade.
  • “Trabalhadores do Brasil” (Vila Isabel, 2008) e “Festa do Círio de Nazaré” (Viradouro, 2004 reedição): sambas que vinham a falar sobre aspectos políticos e culturais de nosso país. A busca pela valorização dos direitos da população.
  • “Reconstruindo a natureza, recriando a vida: os sonho vira realidade” (Portela, 2008): conscientiza o mundo sobre os problemas sociais, econômicos e naturais.
  • “O clemente João VI no Rio: a redescoberta do Brasil” (São Clemente, 2008): trabalha a história da humanidade, a história do Brasil.
  • “Não Corra não mate não morra, pegue carona com a mocidade” (Mocidade, 2004): samba de cunho educativo, que busca a conscientização e a educação da população.
Além destes, existem outros tipos de samba, que retratam os mais diversos aspectos, como as lendas, curiosidades e fantasias. Com isso, pode-se perceber a potencialidade no qual este estilo musical tem para ser explorada no processo de educação.
Podemos até não nos dar conta, mas quando aprendemos um samba, por diversas vezes estamos passando por um processo de aprendizagem, através de um meio de educação popular. Quando acompanhamos um desfile de escola de samba, aí temos uma visão ainda maior, já que a história daquele samba é concretizada na figura dos carros, fantasias e tripés, e o desfile se transforma numa verdadeira aula.
O samba funciona como meio de educação informal, como uma ferramenta de ensino, que possibilita que as classes populares tenham acesso a determinadas culturas por muita das vezes distantes das que estão acostumadas.
Durante os desfiles, por exemplo, uma pessoa que talvez nunca possa conhecer uma pintura famosa ou obras de um grande museu, poderá conhecer através de gigantescas esculturas retratadas em carros alegóricos e até mesmo referenciadas nas letras dos sambas.
Por tudo isso, negar o samba como um fator social formador de um processo cultural, é negar a própria cultura brasileira.
O samba já conquistou sua função como meio de educação popular, na medida em que educa o povo a partir de sua própria realidade, buscando o resgate e a valorização da sua cultura e a transformação social por meio do conhecimento histórico, político e social. E tudo isso com muita diversão!
Fica a dica para professores. Aproveitem o carnaval para ensinar também!

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