Filme expõe o drama de um homem que, ao receber um diagnóstico médico, atravessa o caos de uma angústia intensa | Foto: Divulgação

 

O ano vira, os fogos iluminam o céu e, enquanto todos celebram, um homem se afunda em seus medos. É nesse flerte entre festa e finitude que nasce Carranca, curta-metragem de Daniel Sal que estreia no 13º Festival de Cinema de Caruaru, em 20 de agosto.

Com apenas 15 minutos, o filme apresenta uma narrativa direta e intensa. Tom Nascimento dá vida a Vado, um homem negro de 50 anos, de aparência rude e marcada pelo trabalho duro. Sua natureza taciturna e fechada o torna enigmático, ampliando o mistério que envolve suas escolhas e intensificando as tensões cena após cena. Ao lado de Karina de Faria e Rose Irene Visitação, que dão corpo às tensões íntimas, e de Dailton Mota, que assume o antagonismo, as atuações revelam dinâmicas distintas e evidenciam como morte e amor se entrelaçam, problematizando modelos de masculinidade ainda sustentados por fugas e pela recusa em lidar com a própria fragilidade.

Entre segredos e silêncios, Carranca acompanha Vado, um homem simples de meia-idade que, ao receber um diagnóstico neurológico próximo ao réveillon, vê sua vida atravessada por medo e fragilidade. Dividido entre duas mulheres e marcado por um paralisante medo da morte, ele se torna espelho de masculinidades que evitam o cuidado de si, deixando que a angústia e a precarização se inscrevam em seus corpos.


A doença neurológica que o protagonista enfrenta funciona como metáfora da finitude, presença constante que anuncia o limite da vida. Ela aparece tanto no cotidiano, em exames e diálogos, quanto em projeções psíquicas, criando camadas narrativas que ampliam o impacto da trama.

Produzido pelas Menino Amarelo Filmes e Palenque Filmes, sob a produção de David Aynan, Carranca foi realizado em Feira de Santana, cidade natal do autor e da maior parte da equipe. A escolha da locação não é apenas geográfica, mas simbólica: as paisagens locais atravessam o imaginário do roteiro e compõem atmosferas diversas que sustentam a narrativa. Feira vibra dentro do filme, funcionando como cenário e personagem, celebrando uma dimensão sociopolítica e estética que insiste em afirmar o território cultural e artístico da cidade.

Assim como em Menos Eu, seu curta anterior, Daniel Sal retoma o drama familiar como núcleo narrativo, mas em Carranca a abordagem se desloca para a angústia diante da finitude. Se antes o silêncio era o eixo central, agora é o diagnóstico neurológico que atravessa a vida de Vado e simboliza a proximidade do fim. Dividido entre duas mulheres e marcado por uma existência dura, o protagonista carrega em si, tanto os medos e traumas herdados de uma infância abusiva quanto a possibilidade de afeto e auto compaixão.

Essa ambiguidade dá densidade ao personagem e transforma sua trajetória íntima em reflexão coletiva sobre masculinidades, saúde e fragilidade humana. Ao articular intimidade e morte, o filme intensifica a sensação de angústia progressiva, buscando afetar o espectador com a mesma inquietação que atravessa o protagonista.

A fotografia de Edvaldo Raw e a montagem de Rudyally Kony, junto com a direção de arte de Marcelo Magalhães, constroem uma visualidade densa, onde cidade e narrativa se entrelaçam. Cada plano carrega o peso de uma despedida, cada corte sugere uma ferida aberta. O som também desempenha papel central: dialogando com referências do thriller psicológico e do pós-horror, a paisagem sonora assinada por Léo Rocha, constrói tensão e atmosfera, atuando tanto no fora de campo quanto nas dimensões psíquicas do protagonista. Neste processo, duas composições originais foram criadas especialmente para o filme, reforçando sua identidade estética.

O curta busca provocar reflexão sobre o autocuidado masculino, especialmente na transição da vida adulta para a velhice, quando diagnósticos se tornam mais frequentes e ameaçadores. Muitos homens, sobretudo negros e periféricos, foram socializados em uma lógica de autodoação e trabalho exaustivo, sem espaço para o cuidado de si. Carranca expõe como essa dinâmica pode levar a diagnósticos vividos com angústia desproporcional, revelando o peso do machismo e da precarização sobre esses corpos.

A direção de Daniel Sal, também roteirista da obra, sustenta o impacto ao equilibrar delicadeza e brutalidade. Ao articular intimamente a angústia do protagonista, constrói uma narrativa pulsante, capaz de transformar fragilidade em potência. Com recursos de audiodescrição, legendas e Libras, o curta se apresenta como obra acessível e plural.

Ao fim, Carranca é espelho incômodo e celebração, nos lembrando que cada cabeça é um mundo e que dentro de cada mundo há segredos, silêncios e medos.


Enviado por Elsimar Pondé