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8 de mar. de 2020

Legado vivo: trançar o cabelo é mais do que um código estético


Legado vivo (Foto: Ilustração: Vanessa Ferreira – Preta Ilustra)

Para a população negra, trançar o cabelo é mais do que um código estético, é herança de uma história de resistência, resiliência e ancestralidade, passada entre mulheres, geração após geração. Aqui, a repórter Priscilla Geremias conta de sua experiência com o penteado e de sua busca por saber mais sobre sua tradição. in: Mulher Negra

Por Priscilla Geremias, da Marie Claire

Fiz tranças soltas pela primeira vez em 2017, quando estava no fim de um processo de transição capilar. Tinha medo de assumir os cachos de uma vez e mal lembrava a textura dos meus fios. Acompanho blogueiras negras no Instagram e You Tube e, por causa delas, fiquei sabendo de uma técnica para enfrentar essa fase: tranças. “Elas ajudam no crescimento e protegem o cabelo”, diziam. Convencida, pedi indicação de trancistas a uma amiga e fui ao encontro da profissional munida de uma referência: tranças coloridas que a influenciadora Josy Ramos já tinha usado.


O penteado foi feito na sala da casa da cabeleireira Bia Soll, na zona sul da cidade de São Paulo, a uma hora de carro da minha. O processo todo levou cerca de sete horas, com uma pausa rápida para o almoço. Enquanto ela trançava extensões roxas nos meus fios, assistimos à série CSI: Miami, falamos de suas viagens com o filho adolescente, de música e cuidados com meu novo cabelo. Ser trancista é a única ocupação de Bia, que faz em média cinco penteados só aos fins de semana. Quando terminamos tudo, fiquei impressionada: a partir dali eu tinha tranças longas e roxas, além de uma leve dor no couro cabeludo.

Depois de todo o processo, quis pesquisar mais sobre o que carregava na cabeça. Encontrei uma tese de mestrado que fala sobre a cultura de trançar os cabelos entre os negros. A autora é a doutoranda em Ciências Sociais e pesquisadora de relações étnico-raciais pela PUC-RJ, Luane Bento dos Santos. Seu trabalho parte da ideia de que o ato de trançar é uma das práticas de afirmação de identidade dentro do universo feminino negro, e por isso um patrimônio cultural e social incontestável. “No Brasil de agora, por exemplo, homens e mulheres negros que usam um black power ou os fios trançados transgridem e ressignificam o padrão de beleza. Faz parte de uma nova política da imagem do que é o ‘cabelo bom’. Veja só: neste país, na década de 1970, as pessoas sequer sentavam ao lado de negras trançadas num vagão de trem. Qual o peso que a população negra carrega até hoje por ter resistido com seus penteados? Para quem quer usar as tranças afro porque acha estiloso, digo: pense duas vezes. Elas carregam significados de reexistência, resistência e reafirmação de grupo para os negros”, explica Luane, que logo me faz pensar em apropriação cultural. É disso que ela fala quando explica que trançar os fios é algo que ultrapassa a estética.

A repórter Priscilla Geremias conta de sua experiência com o penteado (Foto: Arquivo pessoal)

Ainda sobre a importância das tranças para a população negra de hoje, comecemos lembrando das crianças, sobretudo meninas, que têm seus cabelos trançados por suas mães e avós na tentativa de romper com o estereótipo do cabelo “embaraçado e sujo”. Essas mesmas meninas, quando adultas, têm a chance de se reconciliar com suas negritudes por meio das mesmas tranças. É um processo bonito, e digo isso por experiência própria. Me senti poderosa e reconectada com as mulheres da minha ancestralidade ao me ver no espelho com os cabelos trançados. Foi tão forte quanto tocar meus fios naturais de novo depois da transição.

“Me senti poderosa e reconectada com as mulheres da minha ancestralidade ao me ver no espelho com os cabelos trançados”

No livro Memórias da Plantação: episódios de racismo cotidiano (ed. Cobogo, 248 págs., R$ 48), Grada Kilomba escreve sobre o mau estereótipo conferido ao cabelo afro na contemporaneidade, lembrando que ele não era tolerado por senhores brancos no período escravocrata das diásporas – processo de dispersão forçado de africanos através do tráfico negreiro –, e que mulheres foram pressionadas a alisar seus fios para “apagar os sinais repulsivos” da negritude. Era comum que utilizassem uma haste de metal ou um ferro de passar roupas levados à brasa e que, muito quentes, permitiam modificar a texturas dos fios. Muitas ficavam com o couro cabeludo ou a testa queimados. Por essas e outras opressões, explica Grada, o cabelo afro tornou-se um importante instrumento de consciência política. “(…) penteados africanos transmitem uma mensagem de fortalecimento racial e um protesto contra a opressão racial”, continua a autora.

Nilma Lino Gomes, doutora em Antropologia Social, pós-doutora em Sociologia e autora de Sem Perder a Raiz (Autêntica Editora, 406 págs., R$ 59,80), me contou que ainda não identificamos um momento histórico específico de quando os africanos começaram a trançar os cabelos. “O que temos são registros de viajantes europeus que exploraram a África por volta de 1400, antes mesmo do processo da escravidão, e relataram em seus diários e cartas o encantamento com a suntuosidade e a beleza dos penteados das mulheres e homens dos diversos reinos africanos. Dentre esses penteados, estavam as tranças.” No século 5 a.C, por exemplo, Heródoto, geógrafo e historiador grego, fez uma série de elogios à estética da população que vivia ao redor do Nilo, no Egito Antigo, descrevendo com riqueza de detalhes a forma como se arrumava o cabelo. Na busca por sinais das tranças afro na história, Maristane de Sousa Rosa Sauimbo, doutoranda em História da África da Faculdade de Letras de Lisboa (FLUL), cita uma peruca de cabelo humano datada do século 14 a.C., típica de oficiais de guerra do gênero masculino, que está no Museu Egípcio do Cairo. A tal peruca, ainda intacta, é toda trançada.

Legado vivo (Foto: Ilustração: Vanessa Ferreira – Preta Ilustra)

As tranças da diáspora são ressignificações dos penteados utilizados nesses períodos antes de Cristo, esclarece Nilma. Hoje, as nagôs, ou tranças raiz (porque são feitas rente ao couro cabeludo), permitem construir desenhos geométricos ou símbolos na cabeça apenas por motivos de estilo. Mas a história conta um passado cheio de significados sobre elas. Os Nagôs foram negros escravizados e vendidos na antiga Costa dos Escravos (atuais Togo, Benim e Nigéria, na África Ocidental) entre os séculos 15 e 19. Os trançados feitos por esse povo eram simbólicos. “Na Colômbia, por exemplo, nos princípios do século 18, as tranças nagôs representavam mapas de fuga dos escravizados”, escreve a socióloga da Universidade Nacional da Colômbia, Lina María Vargas, em sua tese “Poética del peinado afrocolombiano”. “As mulheres faziam as rotas nos cabelos de suas crianças e estabeleciam códigos ocultos para interpretar esse guia formado por nós e tranças, que também marcavam os pontos de encontro”, completa. Nilma vai além e defende que as tranças realizadas pelas mulheres negras são exemplos de força intelectual e cultural. “Fazer tranças nos fios crespos é uma tarefa complexa e delicada. Exige destreza, cálculo, perspectiva, cuidado e um profundo senso estético.”

“É um conhecimento que carregam há gerações, e não algo que se aprende em cursos ou escolas. As mulheres conhecem as tranças com suas mães e avós e repassam as técnicas”

Em 2009, a profissão de Cabeleireiro Étnico e Trancista passou a ser reconhecida pelo Ministério do Trabalho e, hoje, é fonte de renda para muitas mulheres, em sua maioria negras, do país. No trabalho delas, além das tranças nagôs e soltas, estão os modelos twiste e os coquinhos ou bitos (ilustrados ao longo desta reportagem). Cada um dos penteados permite estilizações variadas e o uso de diferentes materiais além do cabelo natural. É comum o uso de fibras sintéticas da mesma cor. Os twistes são feitos com apenas duas mechas. As soltas, com três. Os coquinhos são, como o nome indica, pequenos coques por toda a cabeça. Os penteados também podem ser combinados entre si e usados juntos. Há padrões geométricos e a presença da matemática nas tranças, com a divisão do cabelo em partes iguais para a construção dos desenhos. Também se faz uso de acessórios, como brincos, fitas, pedras, conchas e búzios. “Com os penteados na moda houve uma americanização dos termos no Brasil, o twiste era conhecido como baião de dois no Nordeste ou trança de dois, em São Paulo”, explica Luane.

Voltando às minhas tranças, lembro que assim que publiquei fotos delas nas redes, as perguntas começaram a vir: “O que acha de mulheres brancas usarem penteados africanos?”. Logo pensei que questões como essas precisavam de respostas que entregassem mais do que um simples “sim” ou “não”, afinal, para as mulheres negras, as tranças são herança da ancestralidade afro. Verdade seja dita: se os penteados de etnia africana são vistos como belos atualmente é graças ao processo de ressignificação que as mulheres negras fizeram com eles. “Elas são mantenedoras do legado. Preservam a prática de trançar, seja em casa, na rua e até abrindo salões de beleza especializados. É um conhecimento que carregam há gerações, não é algo que se aprende em cursos ou escolas. As mulheres aprendem com suas mães e avós e repassam as técnicas”, conta Luane.


Sou filha de pai negro e mãe branca. Lá em casa não ouvi falar das tranças nem cheguei a vê-las, enquanto crescia. Desconfio fortemente que sou a primeira mulher, em muito tempo, em minha linhagem que as usou sabendo de seus significados. E tudo bem, digo a mim mesma. Que bom que elas voltaram a minha família através da minha vivência. Agora é comigo repassar esse conhecimento. Talvez este texto seja um bom começo.


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