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22 de mar de 2018

Cinema da Vitória e Teatro Santana, uma fusão que deu certo, no século XIX



Maior conhecedor da sétima arte na Feira de Santana, vale a pena ler o artigo de Dimas Oliveira, lembrando o tempo do Cine Teatro Santana. Um dos mais antigos jornalistas da cidade, que em 2014 lançou o livro sobre cinema, comenta na imprensa impressa e nas redes sociais, os filmes que diariamente são exibidos nas salas de cinema da cidade (Adilson Simas)

LEMBRANÇAS DO CINE TEATRO SANTANA

Dimas Oliveira (foto)

“Cine-Teatro Santana, que me faz sonhar, outrora com bandidos roubando a minha coleção de selos e com certa lourinha mordendo-me a ponta do nariz!” (Eurico Alves Boaventura)

Há 96 anos, em 24 de maio de 1919, a inauguração do Cine-Teatro Santana, a partir da fusão do Cinema da Vitória e o Teatro Santana, que existiam no século XIX. O espaço passou a ser utilizado tanto para as exibições de filmes, quanto para os espetáculos teatrais, musicais e literários. Era situado na antiga Rua Direita, atual Rua Conselheiro Franco, em área pertencente à Santa Casa de Misericórdia. O espaço era considerado um instrumento de difusão dos ideais de civilidade e modernização.

Quando cheguei a Feira de Santana, no início dos anos 50, a sala não mais existia. Assim, nunca assisti a um filme no local. Ainda criança e adolescente sempre passava em frente da fachada preservada do prédio. Depois, foi derrubado para servir de estacionamento.

O que sei sobre o Cine-Teatro Santana foi contado pelo meu pai, Carlos Simões de Oliveira, “habituê” do espaço, de quem herdei o gosto pelo cinema. Eliziário Santana, seu confrade no charadismo, então era o proprietário do Cinema Santana.

Também sei através do historiador Antônio Moreira Ferreira, conhecido como Antônio do Lajedinho, que conta sobre o Cinema:

“(...) Tendo na frente uma porta larga que servia de entrada para a sala de espera, mais duas portas de frente, para saída, e duas bilheterias entre as portas. Ainda na frente existiam três janelas na parte alta, no mesanino, que, com advento do cinema, foram fechadas as laterais e transformadas em seteiras. A central onde foi instalada máquina de projeção. (...) A parte interna era mobiliada com cadeiras, tendo uma divisão na parte próxima do palco.”

Quanto às exibições de filmes e séries, foram apresentados aqueles que tinham a participação de atores renomados no período, como Buck Jones, Buster Keaton, Charles Chaplin, Douglas Fairbanks Jr., Rodolfo Valentino, Tom Mix, entre outros. Filmes como “Tarzan, O Homem Macaco”, de Scot Sidney, 1919, com Elmo Lincoln; “O Garoto”, de e com Charles Chaplin, 1921; “O Filho do Sheik”, de George Fitzmaurice, 1926, com Rodolfo Valentino e Vilma Banky; “A General”, de e com Buster Keaton, 1926; “Cavalheiro Amador”, de Thornton Freeland, 1936, com Douglas Fairbanks Jr. e Elissa Landi; ‘Flash Gordon”, de Frederick Stephani, 1936, com Buster Crabbe e Jean Rogers; “As Aventuras de Sherlock Holmes”, de Alfred L. Werker, 1939, com Basil Rathbone e Nigel Bruce e muitos outros.

Os espetáculos musicais ficavam a cargo das filarmônicas locais - Euterpe Feirense, 25 de Março e Vitória - que faziam saraus, além de cantores de fora que animavam as noites das elites feirenses com diversos ritmos. A poetisa e musicista Georgina Erismann, criadora do Hino à Feira, por várias vezes se apresentou no espaço. Em 1919, quando da passagem do Circo Belga pela cidade, foi realizada uma exibição da trupe belga LebAlberts e “seus cães sábios”.

Nas apresentações teatrais, destaque para o Grupo Dramático Taborda, o Grêmio Lítero-Dramático Rio Branco e as apresentações de cunho religioso, organizadas por grupos como o núcleo das Noelistas.

Além de um espaço de cultura e lazer, o Cine-Teatro Santana foi palco de grandes eventos políticos, como a conferência de Rui Barbosa, quando de sua visita a Feira de Santana, em 25 de dezembro dc 1919. Foi quando ele denominou Feira de Santana de “Princesa do Sertão”.

Eurico Alves Boaventura no poema “Cinema” (trecho no início deste texto) destaca que o cinema era um espaço para se sonhar. Antônio do Lajedinho diz mais que a plateia se entusiasmava com as exibições dos filmes: “a rapaziada fazia questão de ocupar as gerais, porque ah todos aplaudiam batendo o acento da cadeira e gritando a cada castigo que o mocinho aplicava no bandido”.

Ao piano, Anita Novais ou Alcina Dantas executava ritmos compatíveis com as cenas exibidas. As de amor eram acompanhadas com valsas. As de pancadaria, com foxtrote. Durante 30 anos, até o final da década de 40, o Cinema Santana funcionou sem concorrentes.


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