27 de nov de 2017

BICHARADA...

Crédito da imagem: Murdilho, disponível em:http://www.southwestpuzzles.com/

O GALO
(por Silvério Duque)
Se um galo cala o dia chega sem aviso.
Caberá à manhã uma nova arquitetura
para que o galo envolva o dia em sua moldura
que um galo é sempre o abrir do Sol com seu sorriso.

Se um galo deixa de passear pelo terreiro
é menos um guerreiro armado contra a morte
pois se é de crista e esporas sua voz e seu porte
um galo é a um só tempo um passo e o mundo inteiro.

Todo galo a si mesmo se completa. Um galo
como mar em si mesmo se mergulha. Um galo
será sempre a extensão do mesmo e esmero galo.

Um galo canta e o dia chega de um estalo.
Um galo sabe de sua voz... De seu abalo. 
A um galo nada cabe além do próprio galo.

***



O GATO
(por Ildásio Tavares)

I

É susto e salto. 
Olhos

lâmina de luz,
o gato,
tecida maciez de assalto,
passo a passo,
vezes de sinuosidade, enlongamento.

O gato
é susto é calma é salto.

II
Lambe a madrugada
e o silêncio
pé de nuvem
no telhado,

O gato
logo é grito, grito
no cio
da madrugada.

***
O GAVIÃO
(por Bruno Tolentino)
Pousava aqui como quem chega
pesaroso de alguma lousa,
de uma tumba qualquer; já não pousa
como certa mulher, a cega

que mendigava por aqui
quando eu era ainda noviça;
as primeiras vezes que o vi
lembrei-me dela e da carniça

que lhe davam, suas unhas duras
e sujas agarrando aquilo!
Onde andarás? Se nas alturas,
terá modificado o estilo

e provavelmente a ração;
senão… O gavião é o mesmo,
disso estou certa! Mas desde então
cresceu muito, já não voa a esmo

por aí, hoje arrebata a caça,
e quando mata chega de outro jeito,
com outro ar: pousa satisfeito,
é todo a máscara, a couraça

da arrogância! Dá-me raiva vê-lo,
prefiro o modelo anterior…
Como uma escultura de gelo,
esse de agora é ameaçador,

frio, irreal, o senhor das caçadas
traz o nada no bico e no porte:
não vem dos mortos, vem da morte!
Tinha antes só duas pegadas,

era solene como um cemitério;
hoje ele mesmo faz-se um e é o Não
que chega aqui com um ar estéril
e pousa desprezando o chão.

***
SONOLENTOS PASSARINHOS
(por Mihai Eminescu - tradução de Silvério Duque)
Sonolentos passarinhos
vêm pousar por sobre os galhos,
vão dormir entre os seus ninhos...
Boa noite!

Só uma fonte, ao longe, ecoa;
no silêncio deste bosque,
flores dormem à garoa...
Dorme em paz!

Vai um cisne, sobre as águas,
repousar em meio ao juncos –
levem os anjos suas mágoas...
Sono doce!

E o calar da noite erguia
uma linda e clara lua:
tudo é sonho e harmonia...
Boa noite!

***
NAMORADOS
(por Manuel Bandeira)
O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:
-Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, 
com sua cara.
A moça olhou de lado e esperou.
-Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta listrada?
A moça se lembrava:
-A gente fica olhando...
A meninice brincou de novo nos olhos dela.
O rapaz prosseguiu com muita doçura:
-Antônia, você parece uma lagarta listrada.
A moça arregalou os olhos, fez exclamações.
O rapaz concluiu:
-Antônia, você é engraçada! Você parece louca.


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