28 de set de 2016

O VERÃO CHEGOU


O verão atropela a primavera
E chega primeiro ao meu corpo-olfato.
Promessas de flores sobre os muros,
São meu rascunho de felicidade.
Porque a vida é esses remendos de alegria natural.

Não vale a pena amar demais, nem de menos,
Nem vale a pena amar na medida certa.
O homem não aprendeu medidas,
Apenas esmera-se em sonetos caros para dizer-se: poeta!

A primavera melindrada chora!
Isso é nossa herança: o poder de brincar com o mundo inerte.
A solenidade de ser, sem que saibam, um criador.
Cá estou, com meu cigarro aceso, minha mão verde de veias,
E uma história de fracassos que não confessarei no testamento.

Cá estou, uma senhora estúpida, com azia, sem caneta nova,
Sem pregos para o trabalho de mudar as telas
(Como minhas paredes estão velhas!),
Sem violino, sem veneno nas veias, sem homem eleito,
E uma história de fracassos que não confessarei no testamento.

A estação oferta verde aos olhos cavouqueiros,
As gentes estão ocupadas demais, as tevês anunciam a moda,
As gentes da moda, os modos, as falas, os candidatos lutam
Para serem eleitos, os prefeitos usam a máquina,
Minha mãe rouba botões para conseguir sobreviver,
Meu pai aposta nos bichos,
Minha irmã engravida,
Minha sobrinha cresce,
Meu cunhado me perde,
Meu marido me mata,
Meu desejo queima na fôrma, no forno,
Eu morro de uma tristezinha certa,
Protelo o estudo de filosofia,
O FMI sangra meu país diante do verão,
O azul de Pancetti aguarda meu pincel.
Andei por navios vermelhos e vi, em mortes, a banalidade,
Grilos fugiram das gaiolas de Yoko,
A minha avó continua freqüentando os salões do meu sonho,
Sempre ereta, dona do casarão, dona do cacau,
Dona de uma liberdade de mil quilates.
Não adianta: o sol é também sombra.
O meu dia foi todo gasto com a estação.
Ela dizendo-me advertências, fiando meus truques de herói.
A estação pegou meus dedos, nada fiz senão sonhar.
Verão e primavera disputando minha alegria, meu consolo,
Meu soluço, meu discurso pessimista de impressionista
Que busca o seu salão.
Amarelei o meu dia sem muito aguçar na intensidade.
O deslumbramento, ao longe, acenou-me saudades, impressões:
Eram damas sensatas, querendo luz,
Eram mulatas garbosas, chamando a fama,
Homens gregos de músculos inteligentes,
Era o azul dilacerando o branco,
Era o branco dos versos pincelando poesia na agonia da graça,
Na agonia da glória, na agonia platônica da felicidade,
Era a cidade acendendo seus faróis
Aos sóis submersos das avenidas,
Era um eu que me deixou há tempos e não voltou mais,
O açúcar, o café, a farinha, o açúcar mascavo
Em frascos transparentes, esperando o mês para desaparecerem
Da vitrine da minha cozinha,
O anúncio do sol ao fim do dia, abraçando
A insensatez dos sórdidos e dos felizes, no mesmo ato,
É o gato traiçoeiro do meu vizinho dizendo-me que existe,
Apesar dos meus protestos apaixonados,
São notícias de novos ataques contra o Iraque,
Os gemidos dos pais, órfãos de filhas suicidas,
Os perdidos que foram amigos, amores,
Amoras de outros tempos.
Quero ver as hortênsias no meu gramado tropical,
Azaléias na minha grama maltrapilha, entre a hera nova,
Restos de amores-perfeitos idos com o vento.
Abstração faço de mim mesma, e do meu tempo.
Sou esta folha em branco diante dos teus olhos vindouros,
Sou um calabouço cheio de labirintos imaginários:
Quando quero existo e sofro, quando quero,
Pinto-me de abstração esporádica,
Quando me perco, jogo novelos de estrelas mortas,
Quando me encontro, dissolvo o que vejo,
Viro espelho e cerco-me de mil espátulas.
Espadachins defendem o meu cárcere.
Estou aqui! Recebo visitas nos sábados azuis.




Rita Santana

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