11 de ago de 2016

O LUGAR CORRETO DE LUCAS


No último mês do ano em que a Feira de Santana comemorava seu centenário de emancipação política, continuava crescendo o movimento visando mostrar Lucas Evangelista, o Lucas da Feira, como um lutador pelas causas da raça negra, jamais um bandido temido.
 
Historiador, neto do médico e educador Gastão Guimarães, o advogado e jornalista Helder Guimarães Alencar, redator chefe do jornal Feira Hoje, voltou ao tema na edição 244 do jornal que circulou no sábado 1º de dezembro de 1973. 
 
Com o título “A presença de Lucas”, foi publicada na coluna “Pois é”, que assinava semanalmente e que vale a pena ver de novo:
 
- Desde que um movimento de reabilitação de Lucas da Feira foi iniciado, para que a sua ação não continuasse, pelas gerações futuras, sendo deturpada, que a sua presença  vem se tornando mais constante e o seu nome deixa a fama de bandido e vai recebendo o tratamento devido e adequado, de lutador pelas causas da raça negra, que, à época do bravo negro, vivia vilipendiada e oprimida.
 
O escritor Clóvis Amorim, o cineasta Olney São Paulo e o jornalista Franklin Machado, juntamente com este articulista, deram começo ao trabalho para situar Lucas no seu lugar correto, à frente de um movimento de escravos, evadidos dos quilombos e das correntes, que saíram pelas matas de Santana da Feira em busca do mais elementar de todos os direitos até hoje conquistados pelo ser humano: a liberdade.
 
Clóvis Amorim, com a sua excelente conferência “Santo Amaro – Nação da Cana”, pronunciada na Universidade de Brasília; Olney São Paulo, com o seu inteligente conto “ABC do Enforcado”, inserido no seu livro “A Antevéspera e o Canto do Sol”; Franklin Machado com um belo poema “Lucas” e com o show que marcou a sua despedida da cidade, “Terra de Lucas” e nós, aqui no POIS É, ou em conferências e palestras que temos feito por aí afora, temos realizado o trabalho, consciente sob todos os aspectos, para reabilitar Lucas. Aliás, os três últimos continuam realizando, pois Clóvis Amorim, falecido há pouco mais de dois anos, deixou a obra, mas já não tem a oportunidade de prosseguir a caminhada.
 
Ainda ontem, pela manhã, a Rádio Sociedade de Feira de Santana, oferecia, aos seus milhares de ouvintes, a chance de ouvir, mais uma vez, a música vencedora de um festival que se realizou nesta cidade, de autoria de José Silva e Antonio Moreira, sobre Lucas da Feira, música que engrossa a fileira dos que consideram Lucas não o bandido, mas o batalhador por uma raça.
 
Todos sabem que, na vida, é muito mais fácil acusar do que defender, principalmente quando a acusação se reporta aos que já não podem exercer o direito de defesa. Desta forma é muito mais conveniente chamar-se Lucas de bandido negro, facínora, assassino, pura e simplesmente, que se procurar estudar as causas e as origens de sua ação, os problemas que afligiam a sua raça e os aspectos sociais que envolviam o momento em que viveu.
 
É isso que buscam fazer e estão fazendo os que defendem a ação de Lucas da Feira. Estudar e pesquisar todos os aspectos, pois já não se pode oferecer conclusões simplistas e fanáticas a qualquer problema ou a qualquer estudo.
 
Lucas da Feira vai se tornando, neste ano centenário, uma presença e uma presença constante na História da Feia de Santana, que não pode ser fielmente contada se nela não figurar este negro corajoso, bravo, destemido, que saiu em defesa de sua raça.
 

A ação de Lucas está sendo devidamente estudada, para que ele não fique, na História, com a deturpação que muitos pretendem impor à sua luta, na tradicional defesa dos escravocratas, que espoucaram foguetes no dia da sua prisão, sem perceber, por falta de visão histórica, que Lucas permaneceria na História e eles, os seus inimigos, não seriam jamais lembrados, ficariam como figuras sem rosto e sem nome, que apenas passaram pela vida, sem nunca terem feito nada para dizer que viveram. (Adilson Simas)

Fonte: Secom / PMFS

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